Angra – Ilha Grande – Paraty – Ubatuba (04 a 08/01/2016)

  • Milhas percorridas: 100
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz e Elaine Ferraz

Relato

Como relatado nesse post aqui, havíamos levado o barco pra Angra, com intuito de voltar em Janeiro pra um pequeno cruzeiro pela região, e foi exatamente o que fiz. Cheguei no cais da Via Marina na manhã do dia 04/01/2016 juntamente com minha esposa Elaine que pela primeira vez seria minha companheira em uma velejada mais longa, com travessia e tudo mais, e sem as crianças, um cruzeiro romântico! Arrumamos toda a tralha no barco, preparamos tudo e zarpamos na tarde daquele mesmo dia, com destino à Praia da Tapera, na Enseada do Sítio Forte em Ilha Grande, uma navegada de aproximadamente 18 milhas pela frente.

Aqui deixo um importante conselho, pra você meu amigo leitor que esteja pensando em começar o processo de “marinização” de sua companheira (ou, por que não, pra você também, leitora querendo marinizar o companheiro!!). Nas primeiras vezes, seja exageradamente cauteloso!! Não seja ansioso, e não tenha pressa, pois o processo é longo, de qualquer maneira, e a pressa e a ansiedade na vela oceânica, quase SEMPRE levam a situações de stress desnecessário!

Digo isso, pois naquela tarde eu vi muito bem que estava se formando aquelas nuvens bem características daquelas trovoadas de verão, que sempre trazem vento forte e relâmpagos. Como já passava das 16h quando estávamos realmente prontos pra zarpar, eu deveria ter ficado ali mesmo pela marina, curtindo a tarde de chuva a bordo e deixado para sair na manhã do dia seguinte. Porém, minha ansiedade em começar logo o cruzeiro, e a pressa em estar na Tapera já na outra manhã, me fizeram decidir por sair naquele momento mesmo… com a tempestade vindo bem pro nosso lado.

Pois bem, óbvio que fomos pegos pelas nuvens, e já próximo a Ilha da Gipoia eu motorava contra um vento de 25 nós, com muita chuva e raios pra todo lado! A Elaine se aninhou na cabine e acompanhava tudo pelo dog house, bem apreensiva, mas até então estava tudo sob meu controle… a navegada estava sendo desconfortável, molhada e chata, mas tava tudo ok! A pior consequência do meu erro veio depois. Quando chegamos ao Sítio Forte já estava escuro, e o vento não dava trégua, se mantendo sempre acima de 20 nós. A ancoragem no Sítio Forte não é das mais fáceis, é um local muito profundo e cheio de poitas, deixando pouco espaço pra quem vai ficar na âncora, e os locais com profundidade pequena são rapidamente preenchidos em dias de verão. Além disso, nesses dias de tempestade tem um lugar lá onde o vento faz a curva num morro e vem mais forte ainda! Resultado, sobrou pra mim a bacana tarefa de ancorar sozinho, com vento de mais de 30 nós, no breu da noite, com vários barcos por perto e sem conhecer bem o local (só tinha estado uma vez lá com o André Homem de Mello em 2013). Tudo isso, sob os olhares desconfiados e assustados de minha companheira! Que belíssima cagada! Até que acabou sendo tranquilo… ancorei uma vez, reparei que a âncora não estava segurando e estávamos arrastando. Pedi ajuda pra Elaine, apenas pra manter o motor engatado e seguir minhas direções pra ajudar a tirar a âncora. Deu certo, subi a âncora e joguei novamente, agora em um lugar um pouco mais raso e com bastaaaaaante filame. O barco ficou seguro… e é lógico que, pelas leis de Murphy, o vento absurdo e a chuva torrencial pararam alguns poucos minutos depois desse sofrimento todo! Hehehe. Curtimos nossa primeira noite a bordo descansando desse pequeno perrengue, dormindo sob a luz do luar no cockpit.

No dia seguinte, compensamos todas as calorias perdidas no perrengue com um maravilhoso almoço no restaurante Recanto dos Maia, do já famoso casal Nalde e Telma, que sempre recepcionam muito bem os velejadores. Na parte da tarde velejamos até o Saco do Céu, uma das melhores ancoragens da Ilha Grande, e continuamos as aventuras gastronômicas com um belíssimo jantar no Coqueiro Verde.

Na outra manhã zarpamos cedinho rumo à Ilha da Cotia, já iniciando nossa volta sentido Ubatuba. A navegada foi bem tranquila, porém quase toda no motor, não havia um pingo de vento. Chegamos a tardezinha e curtimos um lindo por do sol nessa que também é uma das grandes ancoragens do litoral carioca.

No último dia desse mini-cruzeiro, navegamos da Ilha da Cotia até a Ilha das Couves já em Ubatuba, passando pela Ponta da Joatinga. O mar estava um pouco alto durante essa travessia, porém com ondas bem longas e espaçadas, o que torna a navegação mexida, porém sem bater. Já no arquipélago das Couves, passei entre a Ilha Comprida e a Ilha das Couves, algo que é sempre legal de fazer quando o mar permite. Ali, a força do mar aberto encontra o costão da ilha, sempre causando um cenário meio surreal.

Ancoramos na Ilha das Couves onde alguns amigos já esperavam pra curtirmos o dia com um maravilhoso churrasco a bordo, pra gente contar todas as histórias da viagem. De tarde voltamos pro Saco da Ribeira e pude concluir essa primeira experiência com a Elaine em travessias com um saldo bastante positivo, apesar das lições aprendidas!

Ubatuba – Bracuhy – Angra dos Reis (Via Marina) (20 a 22/12/2015)

  • Milhas percorridas: 70
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz e Eduardo Soares

Relato

Após a volta da grande viagem que fizemos até Arraial do Cabo, estávamos mais empolgados que nunca com o mundo da vela, e empolgados pra ir cada vez mais longe. Nesse dia, tínhamos combinado uma velejada meio maluca, queríamos ir em direção ao alto mar, direção África, até quando a profundidade fosse maior que 200m hehehe…  zarpamos porém o vento estava totalmente favorável para irmos em direção à Angra dos Reis… pensamos bem e chegamos a conclusão de ir pra lá, já que tínhamos planejado de passarmos alguns dias lá em Janeiro, então já uniu o útil ao agradável!

Zarpamos na tarde do domingo 20/12 e velejamos durante a noite toda com um delicioso vento de través vindo de Sul, acredito que era o fim de uma frente fria… chegamos meio cansados na manhã da segunda e ancoramos o Beleza Pura na magnífica ilha de Itanhangá, que fica bem na entrada da Enseada de Bracuí, onde fica a marina de mesmo nome. A ilha é maravilhosa, com uma praia linda de onde se tem vista pros dois lados da ilha, uma característica bem marcante. Descemos com o bote e de tão cansados deitamos na areia mesmo, sob a sombra de uma árvore e usando um tronco caído como travesseiro e tivemos um delicioso sono ao som do mar. Algumas horas depois, começo a acordar ouvindo um som agudo bem carcterístico: GOLFINHOS!!! Ali mesmo, bem em frente a praia, como que gritando: Sejam bem vindos a Angra, seus vagabundos!!!

Levantamos, voltamos pro barco e começamos a nos aprontar pra navegar até a Marina Bracuhy, onde encontraríamos nosso parceiro Maurício Rosa pra umas cervejinhas, um almoço e um bate papo de velejador! Fomos muitíssimo bem recepcionados pelo Maurição, que àquela época morava a bordo de seu Alphorria, um Fast 345 que ficava ali na marina. O lugar é maravilhoso, cheio de estrutura náutica, e o almoço no “Bowteco”, como é chamado o restaurante que fica nas margens do canal, foi delicioso, assim como a conversa com o Maurício. Além do papo ótimo como sempre, o Maurição ainda arrumou uma vaga baratinha na Via Marina, uma marina nova que estava começando a operar na Enseada do Ariro, que fica logo ali ao lado do Bracuí. Zarpamos pra lá e chegamos no começo da tarde, ainda com tempo pra dar uma bela geral no barco, deixando-o prontinho pra receber nossas esposas quando voltássemos em Janeiro.

 

Ubatuba, Arraial do Cabo, Ilha Grande, Ubatuba (19/09 a 03/10/2015)

  • Milhas percorridas: 385
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz, Eduardo Soares, Renato Boralli e Nicola Paolucci

Relato

O sonho era bem claro: levar o Beleza Pura ao Arquipélago dos Abrolhos, no sul da Bahia, onde havíamos ancorado antes com o Pluct-Plact-Zum 2 anos antes. Desde aquele dia juramos voltar lá com nosso próprio barco. Decidimos tentar a sorte mesmo tendo apenas 15 dias de férias e zarpamos de Ubatuba no dia 19/09 com planos de parar em Vitória e depois Abrolhos. Os acontecimentos que seguiram não nos permitiram atingir o objetivo final, mas acabaram sendo a melhor escola e a melhor preparação que poderíamos ter e nos trouxeram experiências únicas que nunca mais esquecerei e que por fim levaram à criação de meu canal no YouTube e diria que até mesmo desse humilde site. Tudo isso você pode vivenciar assistindo a essa pequena série de 6 vídeos que produzi com nossas aventuras nesses dias.

Ubatuba – Ilhabela (Saco do Sombrio) – Ubatuba (20 a 22/06/2015)

  • Milhas percorridas: 57
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz, Eduardo Soares, Thiago Carvalho e Evandro Silva

Relato

Nessa época estávamos em pleno planejamento para a viagem que faríamos em Setembro rumo a Abrolhos. Precisávamos testar melhor os nosso limites e do barco também para estarmos mais seguros com tudo. Quando soubemos que nesse final de semana haveria uma frente fria com ventos de mais de 20 nós e mar com ressaca e ondas de 2 a 3 metros, decidimos zarpar em direção a Ilhabela para uma velejada um pouco mais extrema do que as que estávamos mais acostumados.

Capturamos as ações deste belo treino em vídeo, assista abaixo!

 

Confira também algumas das maravilhosas fotos tiradas por nosso tripulante Evandro ‘Pig’ Silva!

Beleza Pura

 

Ubatuba – Ilha da Vitória – Ilhabela (Saco do Sombrio) – Ilha dos Búzios – Ubatuba (11 e 12/04/2015)

  • Milhas percorridas: 65
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz, Eduardo Soares e Renato Boralli

Relato

Já passavam das 23h quando nosso amigo Renato Boralli chegou à marina. Eu e o Du já estávamos no barco fazia algumas horas, aprontando tudo para talvez sairmos naquela noite mesmo. Um vento médio soprava, mesmo dentro da proteção do Saco da Ribeira, o que assustava um pouco, mas após alguns minutos de vento constante, vimos que não era nenhuma tempestade, e sim mesmo o famoso vento Leste que geralmente impera em Ubatuba. Decidimos sair naquela noite mesmo, porém não diretamente para nosso objetivo que era a Ilha Vitória, mas apenas até a calma e tranquila praia do Flamengo, a cerca de 10 minutos dali, para já aproveitarmos a bela noite de céu limpo longe das luzes da cidade.
A ideia inicial era acordarmos por volta das 5h e zarparmos para a Ilha Vitória, mergulharmos por lá, e depois partir para o Saco do Sombrio, na parte sul da Ilhabela, para pernoitarmos. Não tínhamos o domingo definido, mas queríamos mergulhar de novo, e retornar para Ubatuba no final da tarde.
A noite na Praia do Flamengo foi magnífica como sempre, a lua cheia iluminando fortemente a enseada, as estrelas polvilhando o céu, o silêncio absoluto dos arredores nos permitindo ouvir o chiado fraco do vento batendo contra as árvores da encosta e a música suave da água contra o costado do barco … que privilégio é poder dormir no mar!
No sábado de manhã acordamos um pouco mais tarde do que o previsto (ninguém é de ferro!), tomamos um café da manhã reforçado por sabermos que íamos demorar pra comer de novo, então o Du preparou umas tapiocas de presunto e queijo muito bem feitas! Cozinhar em um veleiro é um perrengue, mas essa é uma arte em que o Du já está bem avançado! Um verdadeiro alívio ter a bordo um cara que assume sem medo o fogão hehehe… Saímos por volta das 7:30h, o vento que soprou a noite toda tinha sumido e como queríamos mergulhar logo, não nos restava outra opção senão motorar até a Vitória. O mar estava um pouco agitado, com ondas de 1,5 a 2m vindas de Leste-Sudeste, ou seja, éramos obrigados a ir cortando essas ondas bem de frente. Sem problemas, a perspectiva de chegar lá e cair no marzão azul não nos deixava desanimar. Outros 2 veleiros saíram praticamente juntos conosco e com o mesmo destino, assim nossa pequena frota chegou à Ilha Vitória após 3h de motor.
A Ilha Vitória é relativamente pequena, formando duas baías maiores em formato de V, uma de cada lado da ilha, sendo uma do lado Oeste e a outra, geralmente mais abrigada, do lado Leste chamada Saco da Professora. Aqui cometemos um pequeno erro… como o mais comum é sempre mergulhar no Saco da Professora, fomos direto para lá. Porém como eu disse acima, as ondas estavam altas, e vindas exatamente de sudeste, ou seja, entravam com tudo onde ancoramos, o que tornou a preparação pré-mergulho um trabalho bem chato. Deveríamos ter ido mergulhar do outro lado, onde teríamos muito mais tranquilidade para armar o equipamento. Mas, paciência, já estávamos ancorados, já estávamos começando a montagem, e mudar de lugar agora não seria prático.
O mergulho correu super bem… era o primeiro mergulho do Renato após tirar a carteirinha de mergulhador, então sempre é um pouco tenso, mas ele teve um ótimo comportamento, sem desespero e bem treinado. Logo de cara encontramos uma raia-borboleta muito grande, coisa de pelo menos 1.5m de envergadura! Muitos frades, bodiões, cirurgiões, peixinhos pequenos em grandes cardumes, encontramos uma moreia do tipo mirictis, meio rara de se ver, enfim, um ótimo mergulho. Ao final, já sabendo os pontos de maior concentração de peixe, peguei o arpão e desci algumas vezes para garantir o almoço hehehe… saldo da pescaria: três peixes médios (dois cirurgiões e um peixe vermelho que não sei o nome, no nosso menu ficou batizado de pescada vermelha! hahaha), ideal pra matar a fome de três marmanjos!
Aprontamos tudo e saímos dali por volta das 14:30h. O vento estava soprando bem leve, em torno de 5-6 nós, vindo de Leste-Noroeste, fazendo exatamente o rumo que devíamos seguir para passarmos por fora da Ilha dos Búzios para depois rumar pro Saco do Sombrio na Ilhabela. Nesse caso com o vento pela popa, e estando sem balão e sem pau de spinakker, não tinha muito o que fazer a não ser deixar o vento pela alheta e ir dando jaibes com pernas longas.
Sem pressa, sem nenhuma previsão de tempo ruim ou mar grosso, não tínhamos nenhum motivo pra ligar o motor. Com o vento que estava e o rumo que conseguíamos fazer, a previsão de chegada ao Saco do Sombrio era por volta das 0h, mas quem ligava? Tocamos o barco por umas 3h assim, e nesse meio tempo o Du limpou os peixes e preparou um sashimi fenomenal, devidamente devorado no cockpit do barco enquanto víamos o pôr-do-sol por trás das montanhas da Ilhabela… momentos que não tem preço! A noite começou a cair por volta das 18h e com ela o vento começou a melhorar, rondando para Sudeste e aumentando para uns 10 nós, o que já tornava a velejada muito gostosa. Pra completar o cenário, o céu começa a se encher de brilho… primeiro Vênus ao Oeste, depois Júpiter quase no zênite, depois Sirius, Canopus, Rigel, Betelgeuse, o Cruzeiro do Sul, e em questão de meia-hora, eu tinha certeza que podia ver todas as estrelas do firmamento! Que visão!! O céu noturno em alto-mar é uma maravilha indescritível, só vendo mesmo pra acreditar. Sentamos os três no convés observando boquiabertos o espetáculo celeste… vimos muitos satélites e alguns meteoritos também… coisa linda!
A velejada se manteve estável até chegarmos ao destino… velejamos com o vento de través até ultrapassarmos a altura do Saco do Sombrio aí demos um jaibe na direção do mesmo. Os faróis da Ponta Pirabura e da Ponta Grossa nos auxiliando na localização, além, é claro, do GPS trabalhando constantemente. Chegamos por volta das 23h motorando ao Saco do Sombrio, um ancoradouro muito protegido que não conhecíamos ainda, portanto nos aproximamos bem devagar, utilizando um farolete para verificar a existência de bóias, marcações, redes, etc, e dali meia hora estávamos seguramente atracados no fundo da baía, bem em frente à base do Iate Clube de Ilhabela que existe por lá. A bioluminescência proveniente do plâncton estava super forte, fazendo com que qualquer movimento no mar provocasse uma onda de brilho, ahhh foi a deixa pra pularmos na água e ficarmos brincando com a luz! A única coisa que queríamos depois disso era um banho, comida e cama, e foi exatamente nessa ordem. O rango novamente ficou por conta do Du que preparou o restante dos peixes na frigideira, fez um arroz e uma salada. Um pouco antes de me recolher pra dormir, fui lá fora bater um papo com o Belezinha:
– Puta velejada da hora hoje heim, parceiro? Você tá ficando bom nisso!
– Ahhh magina, Felão! Vocês que tão aprendendo a me conduzir direito… também, pudera, com o tanto de cagada que já fizeram comigo!! Uma hora aprende!! Hehehehe
– Eeeehhh folgadão, olha lá heim, te deixo pegar uma onda de través amanhã pra aprender a deixar de ser besta!
– Hahaha ok ok, foi da hora mesmo! Não vejo a hora de sairmos por aí de novo amanhã! Será que vai ventar?
– Paciência, meu irmão, paciência… obrigado mesmo por hoje. Você tá foda! Boa noite, aproveita esse céu estrelado aí!
– Boa noite, skipper… sonhe comigo!
– Eu vou, amigão… eu vou…

O calor e o brilho do sol do começo do Outono lentamente foi invadindo a cabine e se não fosse esse “despertador”, provavelmente dormiríamos por horas a mais! O mar tão calmo que o veleiro não se movia, parecia que estávamos ancorados em concreto. Os pássaros também sendo acordados, nos presenteavam com uma bela sinfonia matinal. Porém, tão logo alguém abriu a gaiuta principal, nos deparamos com outro tipo de morador voador da Ilhabela, famoso nessas bandas: os borrachudos! Viramos um belo café-da-manhã para esses bichos chatos! Mas, paciência, é o ciclo da vida, eles também precisam comer…

Não lembro quem foi o primeiro, mas em questão de minutos estávamos os três na água. Como é delicioso poder nadar no mar logo de manhã, ter isso como sua primeira atividade! É renovador! Ficamos ali nadando em volta do barco imóvel por pelo menos uma meia hora, jogando conversa fora e aproveitando pra curar nossa pequena “ressaca” do dia anterior, causada muito mais pela canseira de um dia cheio de atividade do que pela bebida (mas ok, tomamos algumas a mais sim… rsrsrs).

A ideia era sair o mais rápido possível para que tivéssemos tempo suficiente para fazer outro mergulho, afinal tínhamos ainda 3 cilindros cheios, e chegar em Ubatuba não tão tarde, pois o Renato ainda iria voltar naquele mesmo dia pra casa. Porém aquela manhã calma no Saco do Sombrio nos convidava ao ócio! Colocamos um pen drive do Renato com algumas músicas, e estávamos decididos a ouvir algum rock pesado, tipo Black Sabbath ou Rainbow pra dar uma acordada, porém quando espetei o pen drive no som, vi uma pasta com o nome “Classic Hits” ou algo do tipo…. não resisti e coloquei pra tocar. QUE MARAVILHA! Logo de cara começa ‘House of The Rising Sun’ do grupo The Animals! Parecia que tinha sido escolhida para aquele momento…. depois Elton John, Rod Stewart, Carpenters, Beach Boys, Simon & Garfunkel… clássico atrás de clássico, a música foi nos obrigando a ficar ali mesmo, no deck do barco, secando ao sol e curtindo nossa preguiça.

Alguém finalmente tomou a iniciativa de descer, começar a ajeitar tudo para saída. Comemos novamente aquelas tapiocas reforçadas, tomamos um café e zarpamos. O vento entrava levemente na baía de Castelhanos, mas com o mar bem liso, iniciamos uma velejada deliciosa, numa orça folgada na direção Nordeste. Esse rumo nos dava duas possibilidades: podíamos seguir direto até a parte de fora da Ilha Anchieta, já em Ubatuba, para irmos mergulhar na Praia do Leste; ou poderíamos orçar um pouco mais, parar na Ilha dos Búzios para mergulhar e depois seguir mais a tarde para Ubatuba. Decidimos pela segunda opção, pois o vento estava fraco, estávamos desenvolvendo apenas 3 nós de velocidade e se deixássemos para mergulhar só em Ubatuba já estaria de noite.

Após umas 2 horas nessa velejada sossegada, estávamos na parte de dentro da Ilha dos Búzios. Iniciamos lentamente o processo de preparação dos equipamentos para o mergulho, curtindo o visual meio sombrio que agora pairava, visto que agora tínhamos nuvens escuras por cima de toda a Ilhabela. Nenhum de nós tinha mergulhado naquela ilha, portanto observamos um ponto onde haviam algumas outras embarcações pescando e fazendo caça submarina e decidimos mergulhar por ali. Tudo pronto, vamos pra água!

Confesso que o mergulho me decepcionou um pouco. Esperava encontrar a mesma quantidade e variedade de vida que encontramos na Ilha Vitória, porém, não sei se foi o ponto escolhido, ou o horário, ou como estava a maré, enfim, são muitas variáveis, mas o fato é que foi um mergulho com pouca atividade. Os peixes mais comuns estavam lá, os cardumes de cirurgiões, de sargentinhos, vários frades de todos os tamanhos, mas nada muito além disso. O que mais marcou mesmo foi uma moreia BEM GRANDE que vimos já no final do mergulho, meio azulada / amarelada, bem bonita… acabou sendo o único diferencial. Ainda antes de subirmos, estávamos a uns 12m de profundidade e pude ver o fundo da ilha, onde se dividiam mesmo as pedras e corais do fundo arenoso. Descemos um pouco mais para alcançá-lo, batemos em 20m de profundidade, nos ajoelhamos na areia, demos as mãos e, olhos nos olhos, agradecemos à magnífica Natureza por nos deixar fazer parte de seus espetáculos.

Terminamos o mergulho e voltamos nadando pela superfície até o Beleza Pura. O tempo estava exatamente o mesmo, as nuvens negras pareciam não ter mudando 1 centímetro sequer de lugar. Não demos muita chance pro azar então e saímos rapidamente em direção a Ubatuba. Não havia vento algum, e com a limitação de horário do Renato, não tínhamos outra opção senão motorar. E assim foi durante as próximas 4 horas, até chegarmos no Saco da Ribeira, que parecia um lago de tão espelhado.
O Renato começou suas arrumações pra sair, enquanto eu e o Du, que iríamos embora só na segunda a tarde, tomamos um belo banho para irmos jantar na cidade. Fizemos nossa despedida, com o resmungo constante do Renato sobre como era injusto ele ter que ir e nós ficarmos… hehehe… é amigo, é dureza mas é a realidade. Ele botou o pé na estrada, e eu e o Du botamos o estômago em dia com uma bela moqueca no Rei do Peixe, no centro de Ubatuba, com direito a ostras frescas de entrada. Ahhhh que maravilha! Como sempre digo, os rigores e limitações da vida a bordo acabam por te fazer valorizar muito mais os confortos e exageros da vida em terra. Apesar de termos ficado apenas 2 dias a bordo, já foi o suficiente para aquele banho e aquela moqueca me parecerem vida de imperador!

Acordamos cedo na segunda-feira, com muito trabalho a fazer. Tínhamos uma lista de coisas a fazer, checar, comprar, revisar, um monte mesmo de trabalho para fazer no barco até o dia da partida para Abrolhos, e queríamos usar aquela segunda-feira para avançar um pouco nessa lista. O primeiro trampo do dia foi colocarmos armadilhas para cupim em alguns pontos do barco! Por incrível que pareça, os cupins enchem o saco até no mar. Estávamos com alguns focos e não foi fácil colocar as armadilhas nos locais corretos, sempre de muito difícil acesso, mas acho que vai dar certo. O segundo serviço do dia foi retirar nosso fogão para levar para Limeira, já que não encontrávamos ninguém lá em Ubatuba que consertasse o queimador do forno, já quebrado há alguns meses. Arrumamos também a tampa de nossa geladeira e tiramos medida da borracha da geladeira para substituição. Fizemos uma revisão nos estaiamento do barco, junto com nosso amigo Ceará que presta serviço lá em Ubatuba, e chegamos a conclusão que precisamos substituir alguns fuzíveis que estavam danificados. Ele também irá preparar uma nova adriça para nosso gennakker e para uma vela menor de proa (genoa 3 ou buja), além de nos vender um pau de spinnakker também e trocar algumas outras peças como moitões e roldanas. Pra uma viagem como a que vamos fazer, não podemos arriscar em ter peças danificadas, e com as alterações a fazer, vamos ficar com uma ótima gama de armações que podemos usar para velejar.

Ainda antes de sair conversamos também com o eletricista do barco, o Ivã, passamos alguns serviços também que precisavam ser revistos (o pior deles é a luz de top, uma lâmpada que fica no topo do mastro, que está com mau contato, hora liga e hora não… vai ter que subir pra verificar!) e combinamos de marcar um dia pra uma pequena ‘tour’ e ‘aula’ de elétrica no Beleza Pura. Queremos aprender tudo que podemos sobre as entranhas do barco, e a parte elétrica é essencial.

Pra fechar com chave de ouro, ainda conseguimos adentrar em um barco vizinho do nosso, o Santa Vitória, um barco de alumínio, feito no estaleiro do Amyr Klink, e projetado por Thierry Stump, com sistema de mastreação aerorig, aquele que não usa estais, igual o dos barcos do Amyr! Que barco maravilhoso! Totalmente equipado, confortável, pensado para ser usado em qualquer parte do globo e em qualquer situação de vento ou mar… ficamos babando! De lá de fora puder ouvir o Belezinha:

– Hey seus putos, não adianta babar nesse moderninho aí não!!! Vocês vão é comigo pra Abrolhos!!! Sou véio mas me garanto! Hahahaha!!

Sacana… ele estava certo…. chega de sonho, de volta pro BP! Arrumamos nossas coisas, voltamos para nossas cidades, mas a cabeça já está na próxima etapa do treinamento, nos próximos reparos a fazer, na próxima velejada rumo ao sonho maior de simplesmente se largar no mar ao sabor dos ventos.

Ubatuba – Ilhabela – Ubatuba em solitário (19 a 21/12/2014)

  • Milhas percorridas: 50
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz

Relato

Eu já estava de férias e tinha esses dias pré-Natal livres, o que melhor do que passar velejando né? Fazia tempo que eu queria fazer uma travessia em solitário pra sentir como seria, foi a oportunidade perfeita. Saí na sexta-feira bem cedinho e depois da Ilha do Mar Virado entrou um vento muito bom de NW e assim fui até Ilhabela, numa orça um pouco fechada. Travessia tranquila, ir em solitário não fez muita diferença pois não precisei trabalhar muito hehehe…

Chegando lá fiquei novamente em uma poita no Saco da Capela, aproveitei um pouco a cidade, saí pra velejar com alguns amigos no sábado e pegamos um dia maravilhoso, curtimos um pouco na Ilha das Cabras e assistimos um por do sol de tirar o fôlego! No domingo voltei pra Ubatuba sem vento, uma motorada chata, mas tinha valido muito a pena!

 

 

Ubatuba – Paraty – Ubatuba (23 a 25/08/2014)

  • Milhas percorridas: 120
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz, Eduardo Soares, Renato Boralli e Guco Bava

Relato

Primeira velejada com o Beleza Pura para Paraty. Tivemos ainda a felicidade de quando chegamos lá descobrir que simplesmente estava rolando o festival da cachaça!! Imagina se não gostamos hehehe…

Ainda aconteceu outra coisa curiosa, no segundo dia que estávamos lá, navegamos até a Ilha da Cotia, um dos locais mais conhecidos pelos cruzeiristas da área. Estávamos tentando pescar e de repente entrou um peixe. Como o peixe parecia muito pesado já ficamos todos animados, seria uma garoupa, um badejo? Quando o peixe chegou na superfície verificamos que era um BAIACU! Os baiacus são famosos por possuírem um veneno que pode matar um humano, porém como tem uma carne muito boa, existe a famosa história de que no Japão os melhores sushi-men sabem limpar o bicho mas deixando apenas um vestígio desse veneno, o suficiente para amortecer a boca do cliente! Porém nessa brincadeira pelo menos algumas pessoas já morreram!

Enfim, o que fazer com o peixe? A gente tava empolgado e com fome, queríamos comer! O Eduardo já jogou a ideia esdrúxula: vamos entrar no YouTube e ver um vídeo de como limpa!! Hahahaha nenhum de nós topou esse risco! Mantivemos o peixe vivo em um saco com água salgada enquanto rumávamos para a Ilha da Cotia. Chegando lá havia um “barco-bar” que serve porções e bebidas. Levamos o peixe até o bar onde o simpático dono limpou pra gente já nos ensinando como faz! Dessas gentilezas que existem no mar. Foi um momento engraçado a hora de provar a porção, ficamos discutindo a possibilidade do tiozinho ter errado algo e morrermos ali mesmo, mas a conclusão final foi: se há uma maneira “interessante” de morrer, é essa! Ancorados em uma ilha paradisíaca, envenenados pelo peixe que nós mesmos pescamos, definitivamente roteiro de filme hehehe.

Ainda na volta pra Ubatuba tivemos outra demonstração da generosidade dos homens do mar: ao encontrar um barco de pesca próximo ao Pouso da Cajaíba os ajudamos com um pouco de combustível e eles nos deram em troca um balde cheio de peixes fresquinhos, que foram devidamente assados na churrasqueira do barco já em Ubatuba na Ilha das Couves! Momentos que não tem preço…

Salvador – Abrolhos – Vitória (06 a 11/11/2013)

  • Milhas percorridas: 500
  • Embarcação: Plunct, Plact, Zum – Beneteau Oceanis 40
  • Tripulação: André Homem de Mello, Felipe Ferraz, Eduardo Soares, Nilo Neto, Caio Zanardo, Gaetano de Biasi, Alvaro Fernandes e Drine

Relato

Depois de termos feito o curso intermediário com o André e arriscado nossa primeira travessia sozinhos, ainda restava sentir o que era uma velejada em alto mar mesmo, dias e noites inteiros no mar sem ver terra, isso ainda era algo desconhecido pra nós e que queríamos muito aprender e adicionar milhas ao nosso currículo.

Resolvemos então fazer o próximo nível dos cursos do André, o CVOA, curso de vela oceânica avançado, saindo de Salvador e velejando até Vitória, com uma parada em Abrolhos. Foi uma velejada muito agradável, primeiro com pouco vento nas primeiras horas e depois com vento favorável até Abrolhos. Chegamos em Abrolhos na manhã de um dia lindo de sol, nunca vou esquecer aquela visão das ilhas surgindo do nada em nosso horizonte, que sensação!

Aproveitamos a parada em Abrolhos pra fazer um churrasco mas precisávamos zarpar logo então nem descemos pra conhecer o parque, saímos no início da noite para continuar a velejada até Vitória. O vento ficou muito fraco e tivemos que motorar uma boa parte do tempo, mas 2 dias depois estávamos adentrando o porto de Vitória durante a madrugada.

Uma belíssima velejada onde aprendemos mais um pouco e fizemos grandes amigos, principalmente nosso capitão italiano Gaetano de Biasi, que viria a se tornar parceiro de outras velejadas…

 

Ubatuba – Ilhabela – Ubatuba (23 a 25/08/2013)

  • Milhas percorridas: 50
  • Embarcação: Beleza Pura – Velamar 34
  • Tripulação: Felipe Ferraz, Eduardo Soares e Pedrinho

Relato

Após o curso com o André, sentíamos que estávamos prontos para tentar nossa primeira travessia com o Beleza Pura. A escolha óbvia era Ilhabela: é o destino mais próximo a Ubatuba, geralmente temos condições de vento boa para fazer essa travessia, tínhamos amigos por lá, enfim, estava decidido, iríamos velejar até Ilhabela.

O Eduardo levou o sobrinho dele, Pedrinho, pra começar a curtir a vida a bordo. A travessia ia tranquila e basicamente sem vento até chegarmos próximos à Ponta das Canas, local onde sabidamente o vento sempre dá uma acelerada. Mas nós, em nossa inexperiência da época, não sabíamos disso e não estávamos preparados pra isso, mantivemos todo o pano em cima e sinceramente não conhecíamos ainda tanto o nosso barco em condições mais duras assim, resultado: em uma manobra infeliz durante uma rajada mais forte rasgamos uma parte da vela mestra e perdemos uma das talas… paciência, começávamos a aprender que o veleiro tem seus limites e que é muito importante conhecê-los bem e saber responder rápido aos seus pedidos de socorro.

Passado o susto e a adrenalina, conseguimos velejar até a Praia do Jabaquara (onde quase fomos comidos vivos por borrachudos assassinos), na parte norte da ilha, onde ancoramos e descansamos um pouco enquanto esperávamos o vento dar uma diminuída. Depois disso fomos para o Saco da Capela onde pegamos uma poita e curtimos dois dias maravilhosos na Ilhabela, com direito a velejada até a praia do Curral para almoçar lá e no domingo retornamos a Ubatuba.

Ilhabela já começaria a deixar saudades no Beleza Pura! Foi difícil chegar, mas mais difícil sair! Uma ilha com toda a estrutura náutica necessária, uma cidade belíssima, cheia de bons restaurantes, barzinhos (até com cervas especiais!!) lugares charmosos, banheiros públicos super limpos, etc… Impressionante realmente! Estrutura de turismo nota 10! Prometemos que iríamos retorna muito em breve!

 

Paraty – Sítio Forte – Saco do Céu – Paraty (22 e 23/06/2013)

  • Milhas percorridas: 70
  • Embarcação: Plunct, Plact, Zum – Beneteau Oceanis 40
  • Tripulação: André Homem de Mello, Felipe Ferraz, Eduardo Soares, Nilo Neto, Ofir Godoy, José Paschenda

Relato

A primeira travessia oceânica que fiz a bordo de um veleiro foi no curso de vela oceânica intermediário oferecido pelo grande velejador brasileiro André Homem de Mello, que circunavegou o globo em solitário a bordo de seu veleiro no início dos anos 2000. Eu e o Eduardo havíamos comprado o Beleza Pura recentemente e apesar de já estarmos velejando pela área de Ubatuba, sentíamos que faltava um pouco de instrução para começar a nos aventurar em velejadas mais longas. Achamos o curso do André e era exatamente o que precisávamos, uma velejada com um cara experiente na vela oceânica pra aprender na prática o que queríamos.

Foi uma ótima experiência, pegamos um vento legal em Paraty, tivemos até que rizar a vela grande, velejamos deliciosamente até o Pouso da Cajaíba, praia paradísiaca próximo à Ponta da Joatinga, depois velejamos até a Enseada do Sítio Forte na Ilha Grande onde jantamos e pernoitamos. No outro dia velejamos até o Saco do Céu e depois retornamos a Paraty. Um final de semana de muito aprendizado e camaradagem, o André viria a se tornar um grande amigo e mentor.